sexta-feira, 27 de abril de 2018

Pipoca por Rubem Alves

pipoca
Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo — porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu". 


O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.

Rubem Alves: tudo sobre sua vida e sua obra em "Biografias".

domingo, 8 de abril de 2018

04 contas no Instagram

Conta @o_lixo_e_nosso_SOSO Lixo não é seu, o lixo é nosso_SOS 
https://www.instagram.com/o_lixo_e_nosso_SOS/
Preocupada com a produção de lixo no mundo, principalmente descartados nas praias pois machucam e matam animais marinhos

Conta pessoal: @aninhaapolinario
https://www.instagram.com/aninhaapolinario/
Contato humano, ♻️, natureza, 🎨, crianças,🌎arte urbana, ❤️, animais, 🌙e música. 

Ilustres invisíveis @ilustresinvisiveis
https://www.instagram.com/ilustres_invisiveis/ 

Registros fotográficos que pretendem fazer com que os moradores de rua sejam notados e suas histórias emerjam como experiências relevantes que possam ser compartilhadas resgatando a identidade e promovendo a dignidade destes nossos semelhantes. 

Aninha Apolinário Musical - @aninhaapolinariomusical - Granada Musik
https://www.instagram.com/aninhaapolinariomusical/ 
Criação/Produção institucionais, animatic, narramatic, games, ura, internet, ooh, etc. casting/orçamentos aninha.apolinario@granadamusik.com.br  
vimeo.com/user76093080





quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

JR Artist by Rebecca Tribble


I am reaching out to certain website and blog owners that publish content in line with our mission to make all the world’s art accessible to anyone. We hope to continue promoting arts education and accessibility with your help.

Our JR page provides visitors with JR's bio, over 70 of his works, exclusive articles, and up-to-date JR exhibition listings. The page also includes related artists and categories, allowing viewers to discover art beyond our JR page.

Best,
Rebecca Tribble

"What we see changes who we are."
-JR

http://www.artsy.net 

Piper - This movie, Piper, has won an oscar for the best animated short film, fonte AB News & Amp viral videos




Mensagem de 2011 por Miriam Goldenberg via uol, que continua válida pra refletirmos e colocarmos em prática em 2018 ;)



OUTRAS IDEIAS

MIRIAN GOLDENBERG miriangoldenberg@uol.com.br

Feliz Ano-Novo


Inspirada em Leila Diniz, repetirei silenciosamente um mantra nas situações difíceis de 2011



MINHAS RESOLUÇÕES para 
o Ano-Novo: 
Em primeiro lugar, rir muito mais. E também: 
Cantar mais; 
Dançar mais; 
Dizer mais não; 
Curtir amigos e amigas; 
Namorar mais; 
Não levar a vida tão a sério 
e não ficar obcecada com pequenos problemas; 
Não me importar tanto 
com a autoimagem; 
Não me preocupar com a 
opinião dos outros; 
Não tentar agradar a todo 
mundo; 
Ser mais leve; 
Estar com pessoas divertidas e relaxadas; 
Ver mais comédias e 
shows divertidos; 
Fugir de pessoas pesadas 
e invejosas; 
Ignorar os maledicentes; 
Buscar prazer no dia a dia; 
Ser menos crítica com os 
outros e comigo mesma; 
Transformar tragédia em 
comédia; 
Não me cobrar tanto; 
Não me comparar com os 
outros; 
Gostar mais de mim; 
Ser minha melhor amiga; 
Ser simples; 
Conviver mais com crianças e brincar mais; 
Viver cada dia como se fosse o último; 
Ter conversas descontraídas e engraçadas; 
Receber muita massagem; 
Chorar no momento que tiver que chorar; 
Ouvir e falar besteiras; 
Deixar que riam de mim e 
rir com eles; 
Perder a vergonha de mim 
mesma; 
Ter menos culpa; 
Ser cada vez mais espontânea e verdadeira; 
Ser "meio Leila Diniz". 
Afinal, Leila dizia: "Sou 
uma pessoa livre e em paz 
com o mundo. Conquistei a 
minha liberdade a duras penas, rompendo com as convenções que tolhiam os meus 
passos. Por isso, fui muitas 
vezes censurada, mas nunca 
vacilei, sempre fui em frente. 
Tudo que fiz me garantiu a 
paz e a tranquilidade que tenho hoje. Sou Leila Diniz, 
qual é o problema?"
Inspirada em Leila Diniz, 
pretendo, em 2011, repetir um 
mantra em diferentes situações que me fizerem sentir insegurança, inadequação, 
medo, frustração. 
Um mantra que irá me proteger de vaidades, invejas, 
violências físicas e verbais, 
politicagens, fofocas, desrespeito, falta de gentileza e de 
reconhecimento e competição exacerbada tão presentes no Brasil hoje. 
Imitando Leila Diniz, repetirei o mantra, silenciosamente, nos momentos difíceis 
de 2011: "Sou Mirian Goldenberg, qual é o problema?" 
E você, leitor, quais são 
suas resoluções para 2011? 


MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "Por Que Homens e Mulheres Traem?"(Ed. BestBolso)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Amor por Clarice Lispector

O caminho que eu escolhi é o do amor. Não importam as dores, as angústias, nem as decepções que eu vou ter que encarar. Escolhi ser verdadeira. No meu caminho, o abraço é apertado, o aperto de mão é sincero, por isso não estranhe a minha maneira de sorrir, de te desejar o bem. É só assim que eu enxergo a vida, e é só assim que eu acredito que valha a pena viver. Clarice Lispector